sexta-feira, 24 de abril de 2015

SERGIO MACHADO - um psicanalista que trafegou pelo sagrado

Sergio Machado voava alto e era preciso como uma águia
 
 
A transcrição desta entrevista é uma homenagem ao meu amigo, psiquiatra e psicanalista do Rio de Janeiro, Sérgio Machado, que nos deixou esta semana, na quinta feira, 23 de abril, dia de São Jorge, para fazer juz à sua índole guerreira. No início dos anos dois mil, ele e a mulher Marilda construíram uma belíssima e aconchegante propriedade no alto do Caledônia de onde, durante alguns anos, apreciaram e admiraram junto aos filhos e amigos uma das mais belas vistas de Nova Friburgo. Eles pretendiam fincar raízes na cidade para morar e clinicar. A vida não permitiu. Num fim de semana, Sergio, gentilmente, recebeu meu (então) aluno Max Wolosker , hoje jornalista e colunista para uma simpática conversa sobre suas experiências profissionais e de vida. O que na época era uma atividade acadêmica, hoje se transformou num registro biográfico que me orgulho de publicar em meu blog.
 
Curiosa é sua caminhada ao longo da vida. Nos idos de 1964, Sergio formou-se em Engenharia Mecânica, na UFF, mas somente em 1977, na Faculdade de Medicina da UFRJ), é que concluiu o curso de Medicina. Talvez, estes dois cursos tão opostos em sua essência, sejam uma amostra de sua personalidade irrequieta e aberta. O psiquiatra destaca-se no tratamento de pacientes portadores de síndrome do pânico, depressão e no acompanhamento a portadores de câncer. Mas, aponta como uma de suas atuações mais marcantes, o trabalho realizado junto à mãe de santo Marlicene Figueiredo que redundou na fundação do Instituto São Cipriano, em Campo Grande, no Rio - hoje, uma ONG - que cuida de meninas entre sete e dezessete anos, oriundas de favelas da região de Bangu, Campo Grande e Santa Cruz, visando tirá-las da prostituição. Além de atendimento básico de saúde, em ginecologia e clínica médica e apoio psicológico, o instituto ministra cursos profissionalizantes e faz com que elas freqüentem a escola com regularidade. Sérgio tem também trabalhos publicados, dentre os quais destacamos “Manejo de situações clínicas difíceis”. Com certeza, as características mais marcantes de Sergio são seu alto astral, que o deixa sempre de bem com a vida; o bom papo; e a visceral ligação com a natureza, que direcionou sua escolha por Nova Friburgo.
 
Sua vida acadêmica começa na Engenharia Mecânica. O que o levou a essa primeira escolha?
Sempre gostei de mecânica, desde menino montava e desmontava carrinhos. Meu avô paterno era engenheiro e meu pai sempre quis ser engenheiro, era seu sonho. Mas em função da guerra de 14, meu avô que trabalhava numa empresa alemã, perdeu dinheiro e meu pai não pôde estudar.  Acabou sendo bancário e morreu bancário. Depois que eu terminei meu processo de análise, concluí que a engenharia que cursei, foi para ele e não para mim. Para você ter uma idéia, no meu descanso dos estudos para o vestibular de engenharia, lia a História da Psiquiatria, de Frans Alexander, com a qual me divertia. Seis anos após a formatura de engenharia, recebi um comunicado do CREA (Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura) me informando que estava exercendo a profissão ilegalmente. Isso, porque entreguei o certificado de conclusão da faculdade para o meu pai - que ficou orgulhosíssimo -, mas me esqueci de registrar o diploma!
 
O que o motivou para uma mudança tão radical, da Engenharia para a Medicina?
Acho que sempre tive essa queda pela medicina, apesar de não ter consciência disso. Na realidade, a única consciência que tinha era que estava muito infeliz como engenheiro. Trabalhava muito, era o que hoje chamamos de workaholic. Em 1969, estava numa obra em Santa Catarina, na hoje famosa praia de Garopaba, quando comecei a ter dores de cabeça insuportáveis. Fui transferido para o Rio onde diagnosticaram uma meningite tuberculosa. Tive de ficar um ano e meio parado, sendo que três meses praticamente isolado, para fugir de estímulos sensoriais, principalmente, som e luz. Durante esse longo período, tive tempo para pensar e cheguei à conclusão de que a doença tinha sido uma tentativa de suicídio bem sucedida. O Sérgio Machado que emergiu dessa situação, era uma pessoa completamente diferente que, entre outras coisas, abandonou a engenharia e decidiu ser médico.
Quantos anos você tinha, quando fez Medicina?
Fiz o vestibular com 34 para 35 e terminei a faculdade com 40 anos. Para se ter uma idéia de como o meu objetivo era mesmo a Medicina, estudei três meses e passei em décimo nono lugar na UFRJ. Para Engenharia, tive que fazer quatro vestibulares.
 
O que o levou à psiquiatria e à psicanálise?
Acho que a medicina e a psiquiatria vêm de berço, é como o dom da música. A ligação com a psicanálise começou na época em que larguei a engenharia, pois minha família e meus amigos diziam que eu estava completamente louco e deveria fazer análise. Logo eu que sempre tive muito medo (e continuo tendo), de psicanalistas (risos)! O internato, no sexto ano de medicina, já fiz em psiquiatria, depois cursei dois anos de pós-graduação que me deram o título de especialista. Paralelamente a isso, fiz cinco anos de formação analítica. Só que hoje, faço psicanálise do meu jeito, o que me fez sair da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro. Na verdade, acho que nem deveria ter sido aceito, pois minha atuação (inclusive receitando medicamentos), não se enquadrava com as diretrizes da sociedade, dirigida para quem gosta da política e da produção teórica psicanalítica. Eu gosto mais de clínica, de doença, tenho uma conduta mais realista, muito diferente da que se procura num analista padrão.
 
Misticismo e Psiquiatria têm algo a ver? Você tem alguma religião, professa alguma crença?
Acho que tem tudo a ver porque tem muito místico doido; e muito psiquiatra místico; e que não sabem. Eu não tenho nenhuma fé religiosa, embora trafegue pelo sagrado.
Como foi seu envolvimento com o Centro São Cipriano, da mãe de santo Marlicene?
Eu tinha um terreno ao lado do centro de umbanda da Marlicene que estava com problemas burocráticos. Um dia fui lá para resolver estas questões e meu empregado sugeriu que eu fosse ao terreiro vizinho para ver se havia envolvimentos espirituais nas dificuldades que enfrentava. Apresentaram-me à Marlicene e ela perguntou se eu era médico, pois atendera uma moça que passava mal e o caso era para médico e não para mãe de santo. Eu a examinei e vi que estava delirando, em franca crise psicótica. Mandei comprar medicamentos injetáveis que, depois de aplicados, me obrigaram a esperar para aguardar o resultado. Quando descobriram que eu era médico, até a psicótica melhorar, fiz sete atendimentos. Marlicene me disse que eu tinha o dom da cura e perguntou se não gostaria de trabalhar lá, como médico. Eu topei e foi assim que tudo começou.
Quer dizer que você é um dos fundadores do atual Instituto São Cipriano?
Sim e tenho muito orgulho de ter começado este trabalho. O início foi curioso, engraçado mesmo. Como não tinha consultório lá, era obrigado a atender no meio do terreiro com um grande altar sincrético ao fundo. Por respeito, tirava os sapatos; por ser médico, andava de branco. Desse modo, entre um médico e um pai de santo, a diferença era muito pequena. Mas no centro, minha palavra passou a ter um peso muito maior que no meu próprio consultório, afinal dava remédio e ainda estava na frente do altar (riso)
 
Como era sua relação com os pacientes no centro da Marlicene?
O mais importante era o diferencial do tempo do atendimento. O paciente esperava muito menos para ser consultado do que num ambulatório público. Além disso, tinha tempo de conversar e contar seus problemas. A consulta não tinha nada de psiquiátrica, psicanalítica ou esotérica, apenas o cara saía dali se sentindo uma pessoa tratada com humanidade. Isso se refletia no tratamento, os medicamentos eram mantidos e, com isso, os sintomas melhoravam.
 
Como era o trabalho no centro São Cipriano?
Começou com atendimento médico e, quando se fazia necessário, encaminhava pacientes para colegas de diversas especialidades. Muita gente que freqüentava o centro, conseguiu tratamento dessa forma, o que seria impossível por conta própria. Aos poucos, levei para lá vários amigos engajados em trabalhos sociais e começamos a estudar um meio de tirar as crianças da rua. Basicamente, as meninas, pois é mais fácil lidar com elas, por serem mais dóceis e cordatas.
 
Como é o entrosamento profissional de um médico com uma mãe de santo? Quem ensina a quem, ou ambos saem ganhando?
Acho que saí lucrando mais do que ela. A Marlicene é uma pessoa fora de série, com uma experiência que não sei de onde ela tira. Aprendi muito com ela que, inclusive, já escreveu livros, discute sobre mecânica quântica, fala sobre filosofia. É impressionante, em qualquer assunto, dialoga com a maior tranqüilidade, apesar de ter cursado apenas o normal. É uma pessoa fantástica e, hoje em dia, uma mãe de santo light. Isto porque o enfoque dela também acabou mudando muito. Por exemplo, ela parou com o sacrifício de animais nos rituais que, atualmente, são feitos apenas com comidas.  Como geralmente faz-se muito mais quantidade do que o necessário, o que sobra é repassado para os asilos, abrigos e orfanatos da região. Na realidade, quem saiu lucrando mesmo foi a população de Campo Grande, pois lá havia carência de tudo e o Instituto São Cipriano veio preencher algumas lacunas e se transformou num centro comunitário com uma grande preocupação social.
Você tem algum caso pitoresco ocorrido no centro São Cipriano?
Lembro especialmente de uma festa de natal que foi tragicômica. Na época, tínhamos 180 crianças e, através de jantares com amigos, arrecadei dinheiro e compramos 400 brinquedos. Aluguei uma roupa de Papai Noel com cajado, saco e tudo e, naquele verão infernal de Campo Grande, me vesti na casa da Marlicene, que era perto do Centro. Quando atravessei a rua, dei de cara com um menino e sua expressão de espanto e felicidade, ao ver Papai Noel em pessoa, ficou gravada em mim até hoje. Mas o fato é que a festa foi um fracasso. Espalhou-se pela região que o bom velhinho ia distribuir presentes no centro e, de repente, apareceram umas mil crianças. Elas invadiram o local e me vi com o cajado na mão gritando: “Saiam seus pestes, fora daqui!”. A coisa foi complicada, pois tivemos de comprar balas e biscoitos para atender à demanda excessiva e eles reclamavam que os amigos tinham ganhado presentes e eles não. Ninguém obedecia, pois eu era um simples Papai Noel bem vestido, cujo código não era o deles. Lá, era um centro espírita, de umbanda, cuja festa maior é Cosme e Damião, o símbolo que eles respeitam e obedecem. Aí eu prometi a mim mesmo não fazer mais festas de natal e sim colaborar com a de Cosme e Damião, que são organizadas do jeito deles, maravilhosas, ordeiras, direitas e bacanas.
 
Você pensa mesmo em se mudar definitivamente para Nova Friburgo?
Se Deus me ajudar, venho. Há trinta anos atrás, tive um sítio em Macaé de Cima, por quase 14 anos. Aquele lugar é um sonho, mas por uma série de circunstâncias, acabei vendendo. Em seguida, tive um outro, em Rio Bonito, perto de Lumiar. Depois comprei uma propriedade em São José do Vale do Rio Preto, onde passei os últimos anos, um lugar também muito bonito, mas que era quente no verão. Friburgo sempre ficou no meu coração. Gosto de mato, de verde, do contato com a natureza, de frio, de acordar cedo e sair para caminhar. Isso tudo é o que não falta por aqui! Tenho um jipe vermelho e ando por esse mato todo. Aqui perto há uma cachoeira e tenho o privilégio de tomar banho, vendo a cidade lá embaixo. Meu sonho é vir morar aqui, definitivamente. Por enquanto, pretendo subir na quinta à noite e descer na segunda à noite. Desse modo, daria para abrir um consultório aqui e manter o do Rio. 
Você como psiquiatra lida muito com a síndrome do pânico? O que é essa síndrome, tão falada atualmente? Seu diagnóstico é difícil?
Hoje em dia, no consultório a grande maioria dos casos é de pânico ou depressão. Se bem que penso que quem abre um jornal hoje e não fica deprimido, ou em pânico, não é normal! Mas, Campo Grande me ensinou muito, pessoas que há 20, 30 anos atrás eram diagnosticadas como portadoras de ansiedade generalizada, hoje seriam enquadradas na síndrome do pânico. Na minha opinião, o que caracteriza o pânico é que ele se manifesta independentemente de qualquer estímulo externo. Por exemplo, quando você perde um ente querido, pode sobrevir uma depressão reativa - que é até esperada. Ou então pode surgir uma depressão fóbica, não reativa - que é um quadro psiquiátrico. No pânico não. O indivíduo está dirigindo o seu carro e, repentinamente, tem um troço - talvez uma descarga violenta de cortisol - que causa taquicardia, falta de ar, medo de perder o controle e de morrer. Ele larga o carro no meio da rua e sai correndo. É atendido num pronto socorro, taquicárdico, mas com pressão arterial normal que melhora com um medicamento benzodiazepínico, relaxante. A partir daí, o cara começa a ficar com medo do medo. Para mim o pânico é isso, você não tem nada prévio e, subitamente, se desencadeia uma situação como essa. Acho que ele está associado a uma condição fóbica e, como toda fobia, a um quadro depressivo subjacente. Portanto, é tratável com antidepressivo.
Já que você falou em depressão, qual a diferença entre depressão e angústia?
Essa é uma pergunta capciosa, porque é difícil diferenciar as duas. Geralmente, a depressão vem acompanhada de pensamentos negativos, o paciente acha que nada vale a pena, nada vai dar certo, que o melhor é morrer mesmo. É um processo mais de alma. A angústia está mais ligada a algo existencial, é mais filosófica. O fato de estarmos vivos hoje, produz angústia.  O governo que temos, a fome na África, a violência no Rio de Janeiro são causas de angústia e não de depressão.
 
No caso do câncer, a própria doença leva à depressão ou ela surge em função do tratamento?
As duas coisas. Já vi portadores de câncer se tornarem mais espertos ao receber a notícia e reagirem de uma forma fantástica. Assim como já presenciei portadores de câncer deprimir gravemente, diante da ameaça real que estão sofrendo. Nesses casos, é preciso ajudá-los a lidar com essa situação. O uso de antidepressivos, desde que venha junto com a psicoterapia, tem um efeito muito bom. Só acredito no antidepressivo, sozinho, nas depressões maiores, endógenas. Acho que não existe uma relação direta entre câncer e depressão. Apesar dos quimioterápicos reduzirem a taxa de serotonina, nem todos os pacientes passam por esse quadro.
Você é casado, tem filhos? Fale um pouco de sua vida familiar.
Tenho cinco filhos, dois do meu primeiro casamento e três com a Marilda. Na verdade, eles são meus enteados, mas como estamos juntos há mais de trinta anos, os considero como meus filhos, também.
 
Você tem algum projeto, além da medicina?
Um projeto que já estou realizando, com a ajuda do jornalista Silvio Ferraz, é escrever minhas histórias, afinal com minha idade, já posso olhar para trás. Só pretendo parar de trabalhar quando morrer, gosto muito do meu consultório. Aliás, outro dia aconteceu um caso engraçado. Tenho um paciente esquizofrênico que é muito boa gente. Ele estava na sala de espera e eu atendia uma freira, levada por outra religiosa, com uma profunda depressão. Quando a consulta terminou e abri a porta, ele viu as duas freiras, de hábito, indo embora. Ele entrou e me perguntou: “Pô Sérgio, será que eu piorei muito? Saíram mesmo duas freiras daqui?” Quando eu confirmei que sim ele indagou: “E freira vai a psiquiatra?”
 
Max Wolosker

domingo, 8 de março de 2015

No dia internacional da mulher, a Imperatriz


Hoje quem escolheu a carta do tarô fui eu. E não podia ser diferente, é o dia de reverenciarmos o feminino, o yang, o intuitivo que há dentro de cada uma de nós.

A imperatriz é aquela que dá a luz. Sua criação é expressa de forma concreta através da maternidade. Em seu ventre encontra-se a produção de algo que vai nascer de verdade.

Ela é a soberana, de personalidade forte, que governa seus territórios. É o yin manifesto, concreto, prático. 

Seus aspectos positivos são a fertilidade, criação de ideias, extroversão, paixão, desejo. No jogo ela é a consulente que consulta o tarô e também as outras mulheres em sua vida – mãe, amigas, filhas. 

A face negativa desta carta nos mostra a prepotência feminina, abuso de poder, arrogância, falta de feminilidade, futilidade, negação das emoções e dos desejos sexuais.

Qual dessas mulheres queremos ser? Qual das energias do arcano da Imperatriz desejamos vibrar? No jogo da vida sempre há os dois lados e é o nosso livre arbítrio que determina os rumos de nossas escolhas. Seremos mulheres intuitivas, férteis, parideiras (de filhos, criações, ideias); fortes e sempre no comando de nossos territórios? Ou vamos desprezar essas possibilidades e deixar sobressair a prepotência, em vez da aceitação intuitiva; a futilidade no lugar da simplicidade; a repressão em oposição à liberação de nossos desejos?

Meninas, estamos no terceiro milênio! É o momento de equilíbrio entre as energias yin e yang. Ultrapassamos as guerras, litígios desnecessários. É hora de darmos o braço aos “nossos imperadores” e seguirmos em frente na direção de um trono duplo compartilhado de amor.

Aproveitando a oportunidade, lanço aqui um aperitivo de meu próximo livro, onde faço uma equivalência entre o tarô e o evangelho. É um presente para meus leitores!

FERMENTAR: A FUNÇÃO DA IMPERATRIZ
                                                                                             
Ele disse: “Como é o reino de Deus? A quem poderei compará-lo? Ele é como um grão de mostarda que um homem pegou e plantou no quintal. Ele cresceu, tornou-se uma árvore, e as aves do céu fizeram ninhos em seus galhos.”
Ele disse ainda: “O reino de Deus é como o fermento que uma mulher pegou e misturou a três medidas de farinha, de modo que toda a massa ficasse fermentada.”


Dá para pensar, não é?

No dia internacional da mulher, a Imperatriz



Hoje quem escolheu a carta do tarô fui eu. E não podia ser diferente, é o dia de reverenciarmos o feminino, o yang, o intuitivo que há dentro de cada uma de nós.
A imperatriz é aquela que dá a luz. Sua criação é expressa de forma concreta através da maternidade. Em seu ventre encontra-se a produção de algo que vai nascer de verdade.
Ela é a soberana, de personalidade forte, que governa seus territórios. É o yin manifesto, concreto, prático. Seus aspectos positivos são a fertilidade, criação de ideias, extroversão, paixão, desejo. No jogo ela é a consulente que consulta o tarô e também as outras mulheres em sua vida – mãe, amigas, filhas. A face negativa desta carta nos mostra a prepotência feminina, abuso de poder, arrogância, falta de feminilidade, futilidade, negação das emoções e dos desejos sexuais.
Qual dessas mulheres queremos ser? Qual das energias do arcano da Imperatriz desejamos vibrar? No jogo da vida sempre há os dois lados e é o nosso livre arbítrio que determina os rumos de nossas escolhas. Seremos mulheres intuitivas, férteis, parideiras (de filhos, criações, ideias); fortes e sempre no comando de nossos territórios? Ou vamos desprezar essas possibilidades e deixar sobressair a prepotência, em vez da aceitação intuitiva; a futilidade no lugar da simplicidade; a repressão em oposição à liberação de nossos desejos?
Meninas, estamos no terceiro milênio! É o momento de equilíbrio entre as energias yin e yang. Ultrapassamos as guerras, litígios desnecessários. É hora de darmos o braço aos “nossos imperadores” e seguirmos em frente na direção de um trono duplo compartilhado de amor.
Aproveitando a oportunidade, lanço aqui uma equivalência que faço em meu próximo livro, ainda inédito, entre o tarô e o evangelho. É um presente para meus leitores!

FERMENTAR: A FUNÇÃO DA IMPERATRIZ
                                                                                             
Ele disse: “Como é o reino de Deus? A quem poderei compará-lo? Ele é como um grão de mostarda que um homem pegou e plantou no quintal. Ele cresceu, tornou-se uma árvore, e as aves do céu fizeram ninhos em seus galhos.”
Ele disse ainda: “O reino de Deus é como o fermento que uma mulher pegou e misturou a três medidas de farinha, de modo que toda a massa ficasse fermentada.”


Dá para pensar, não é?

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

De Cristina para Marias Gurjão




Quando eu era criança ela fez 15 anos. Sua festa foi registrada num jornal, cujo recorte guardei por muitos anos. Na minha adolescência ela abriu uma das primeiras butiques do Rio, na Prudente de Morais. Fui lá conhecê-la. A coincidência de nomes fez com que ela me recebesse e acolhesse com um humor especial. Constatamos que éramos primas distantes e ela falou: “Não dá para você mudar seu nome? É um péssimo negócio ser minha homônima. Sou boêmia, da noite, comerciante endividada... E além de tudo quer ser jornalista como eu?”
Quando eu era uma jovem que namorava e saía para passear pela noite carioca com meus amigos, ela abriu uma outra butique, no Leblon, ao lado do mais badalado restaurante carioca, o Antonio’s. Só que dessa vez resolveu dar seu próprio nome ao estabelecimento. Grandes confusões! Claro que a família e os amigos pensaram que eu tinha mudado de ramo e, provavelmente, assaltado um banco, para inaugurar uma loja naquele local! Foi aí que surgiu a frase que virou um mantra em minha vida:  “Não sou eu, é a “outra”.
Quando ela casou com Vinicius de Morais, acho que provocou a maior confusão homonímia (será que essa palavra existe?!) de toda nossa vida! Até um padre amigo de minha mãe ligou para saber se era eu! Se o casamento durou pouco, esse fato permanece vivo até hoje. Em tempos de facebook, de vez em quando, tenho que emitir o mantra para alguns alunos que encontram na rede informações de meu casamento com o poeta! “Não sou eu, é a outra”, digo para grande decepção deles que pensavam ter uma celebridade como professora!
Quando entrei no jornal O Globo ela casou com Roberto Paulino, meu colega e super amigo do Segundo Caderno, com quem aprendi muito do que sou hoje como jornalista. Jovenzinha recém-casada entrei no jornal um dia e todos me olharam de um jeito muito estranho. Até que alguém teve a coragem de perguntar: “O que aconteceu com seu casamento? Você casou com Paulino?” Às gargalhadas entendi o espanto da turma e respondi com o mantra: “É a outra”.
 Quando já estava bem, profissionalmente, repórter ativa do dia a dia do Segundo Caderno, novamente fui vítima da perplexidade dos colegas. “Você não estava em Portugal, como correspondente? Como está aqui agora?” “Não pessoal, não tenho o dom da ubiquidade! É a outra”.
Quando fui para o Caderno B do Jornal do Brasil assinar matérias pela primeira vez na minha vida profissional, usei o sobrenome do meu marido para me diferenciar profissionalmente da prima que era muito mais conhecida do que eu. Passei seis meses lá num profundo ostracismo até que um dia, abri o jornal de manhã e vi uma matéria assinada com meu nome de solteira! Acreditem, ela estava lá, novamente, me envolvendo em equívocos. Daquele dia em diante meu telefone tocava todas as vezes que era publicada uma reportagem dela, obrigando-me a proferir o mantra... As minhas, ignoravam.
Quando voltou de Portugal, minha homônima foi morar na Lagoa com meu colega de redação do Globo. Adivinhem onde? No prédio da minha mãe! Foi um tal de correspondência sendo entregue errada, porteiros confusos e o mantra vagando no ar: “não é ela, é a outra”, até que se mudaram.
Quando me mudei para Friburgo com a família, um dia minha filha caçula entrou em casa e me disse: “Mãe sabe aquela sua prima com o mesmo nome seu? Ela estava no salão marcando uma hora para fazer as unhas.” Era o lugar que eu frequentava desde que chegara à cidade e corri para lá para saber mais informações. Era ela mesma, tinha um sítio perto da cidade e apareceu por acaso. Infelizmente não voltou na hora marcada e a perdi de vista. Em Friburgo?????? Demais não acham?
Quando me separei, anos depois, resolvi voltar ao meu nome de solteira e enfrentar as coincidências dali para a frente. Já estava muito velha para fugir do destino. Foi um ato de coragem, não só pela presença tão forte da prima no cenário social, como também por já ter um nome como jornalista e escritora. A família foi contra, mas insisti.
Quando abri o jornal naquele dia, menos de dois anos depois de minha separação, levei um choque. Um anúncio de morte com meu nome e sobrenome saltava aos olhos na página do obituário. Fiquei triste, ela partira cedo, não tivemos tempo de encarar os resultados dos nomes iguais... Nem preciso dizer que muita gente achou que era eu e telefonou para minha mãe e irmãos para ouvir o mantra: “Não é ela, é a outra.”
Quando isso aconteceu voltaram à minha cabeça as memórias de tantos caminhos cruzados, tantas situações engraçadas, tantas confusões desfeitas. Confesso que me deu uma certa nostalgia. Será que acabou? Até que um dia, entro no face da Ana Maria Ramalho e encontro um post a respeito do meu blog “Universo Paralelo” que dizia mais ou menos assim: “É estranho quando leio os textos dela. Mesmo nome, jornalista e escreve bem”. Era de Maria de Morais, filha de minha homônima. A história não acabara. Hoje somos amigas virtuais no face e esta crônica prometi a ela quando conversamos pela primeira vez. Aliás, prometi a mim mesma que um dia ia registrar nossa história.
Aí está Cristina Gurjão, para você com carinho de sua prima, Cristina Gurjão.
 
 

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Mensagem do I Ching para 2015

O que é o I Ching
O I Ching é um oráculo chinês com mais de três mil anos de existência. Diz-se que é o mais antigo livro chinês. Sua função é filosófica, fazer os homens pensarem sobre a própria vida. Ele é baseado nos elementos e forças da natureza – água, terra, fogo, ar, madeira, chuva, trovões, lago, vento; portanto, xamânico. A parte divinatória é secundária, e serve de ajuda para momentos de obscuridade.

Como se joga o I Ching?
Para se chegar aos hexagramas (formados por trigramas) – as seis linhas que nos trazem as mensagens – são necessárias combinações matemáticas de três moedas (no sistema cara e coroa); ou de varetas – estas mais complicadas –, obtidas através de seis jogadas. Usam-se normalmente as moedas para chegar aos dois hexagramas que compõem a leitura. O primeiro corresponde à questão principal; o segundo é a conseqüência do primeiro. É obrigatório fazer uma pergunta clara antes de iniciar o jogo.

Portanto, fiz uma pergunta ao oráculo para nos orientar no próximo ano:

I Ching, uma mensagem para o ano de 2015

Ele respondeu com o hexagrama 
36 – MING/ Obscurecimento da luz (sem mutante).

O Sol mergulhou sobre a terra e está obscurecido, o significado do hexagrama é “lesão do luminoso”. No texto há muitas alusões a ferimentos e diz que “um homem tenebroso ocupa a posição influente e causa malefícios aos homens capazes e sábios”,
Ele nos aconselha a ter perseverança no íntimo de nossas consciências diante das adversidades provocadas por esta situação. Precisamos ser fortes e não nos deixarmos abater, mantendo a fortaleza interior

É uma mensagem densa que fala de períodos difíceis. Precisamos nos preparar para as adversidades provocadas pela situação de um poder que obstrui a luz. E o I Ching nos ajuda através de alguns conselhos bem objetivos:

  •         Conservar a clareza interior.
  •         Ser adaptável no plano externo.
  •         Ocultar um pouco a própria luz nos ambientes hostis.
  •         Ser cuidadoso e discreto.
  •         Não atrair inimizades por conta de condutas impensadas.
  •     Não pretender saber tudo nos contatos sociais, porém, não se deixar enganar.
  •       Não se deixar levar pelos maus hábitos da maioria, porém, não criticá-los publicamente.


Ter consciência do que nos espera é o principal elemento de ajuda para seguirmos o caminho. Desejo que todos compreendam as palavras do oráculo e saibam aplicá-las individualmente na própria vida. A LUZ não permanece obscura para sempre e os homens de bem saberão fazê-la brilhar novamente através de ações iluminadas por seus corações.


Boas festa e um Ano Novo cheio de luz interior! 

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

A carta da vez: Os enamorados



Depois de um período conturbado de disputa política com rivalidades expostas e polaridades trocando ofensas, o tarô nos propõe uma trégua: os enamorados  – a carta do amor. Que belo momento para refletir sobre isso. As redes sociais mostraram sua possibilidade de servir tanto para o bem quanto para o mal. Muitos véus caíram e as queixas vêm dos dois lados. Ouvi petistas reclamando de excessos da oposição e senti na própria pele ofensas do PT... Foi bom perceber que o Facebook não é o “país das maravilhas” que aparenta ser com tantos gatinhos, cachorrinhos e passarinhos fofos enfeitando a vida de todos os seus participantes.  Sem falar nas correntes de solidariedade, nas fotos saudáveis de pessoas bonitas, iluminadas, sempre sugerindo alto astral e felicidade. Já repararam que ao vivo e a cores nos surpreendemos com muitas dessas pessoas reclamando de tristeza, depressão, problemas seríssimos em família? Não que a rede sirva para despejarmos problemas e recalques em cima de todos os “amigos” (embora até isso tenhamos que pular em alguns posts desnecessários de tragédias “alheias”, é claro...), porém os disfarces são tantos que o espaço de nossos “feeds” torna-se uma ilusão.

É preciso saber usar as redes sociais para nossos interesses pessoais e sociais. Fenômeno recente, aos poucos iremos aprender. Ouvi de um professor, num curso de especialização, algo que se tornou fundamental em meu relacionamento nas redes sociais: “Antes de usar uma rede social é preciso saber o que você espera dela. Por ser um caminho de ida e volta, o que você projetar é o que receberá de volta. Se o usuário quer relacionamentos, aprenda a se relacionar; se precisa de afeto, seja afetuoso; o objetivo é ser popular aceite muitos amigos e divulgue-se bem; interesses comerciais, explore as fan pages.” E por aí vai. Princípio básico: quem não gosta de se expor, seja discreto, senão será abatido pelo “fogo amigo”. E foi isso que vi acontecer neste período eleitoral, muitas pessoas reclamando de ofensas ou descasos de amigos e, pior, algumas amizades desfeitas. Que fique a lição. Ainda não conhecemos todos os poderes dessas novas ferramentas.

O que o tarô nos sugere através da carta dos enamorados é um bom caminho para todos os nossos relacionamentos, virtuais ou pessoais, depois deste momento turbulento, o amor. Sejamos cordiais, acolhedores, respeitosos, cúmplices e parceiros na reconstrução de um novo país que consolida sua democracia. É preciso lembrar que estamos vivendo o mais longo período de democracia de nossa história – 26 anos ininterruptos pós constituição de 1988. Considerando 514 anos de descobrimento, estamos engatinhando ainda. E o maior caminho para a prática do amor numa sociedade ainda é a democracia. 

Termino com uma frase do poeta Leon Paul Fargue, presente de mestre Arthur da Távola em uma de nossas trocas de correspondência:


Discussão somente é útil entre pessoas que pensam com afinidades e mesmo assim, apenas por questões de matizes.”