domingo, 23 de março de 2014

Caem as folhas*



Chegou o outono e com ele ficamos mais recolhidos e interiorizados. Caem as folhas das árvores buscando a renovação. Vamos deixar cair também as nossas folhas velhas, os padrões que nos prendem a uma realidade ultrapassada. Viver o outono é viver a possibilidade do desprendimento.

Vamos observar e copiar a natureza tão sábia em seus ciclos. É impossível imaginar uma árvore se prendendo ao padrão antigo e impedindo suas folhas de envelhecerem e se desprenderem. A cada outono corresponde uma mudança visível. E nós, onde estão nossas mudanças? O que fazemos com nossas folhas velhas?

A Nova Era exige que encaremos nossos padrões emocionais antigos e partamos para as mudanças. Isto é o que é ultrapassar o carma e realizar a verdadeira transformação. Vamos virar árvores sem folhas com coragem e resolução neste outono?

*Editorial publicado no extinto jornal Pendulo em abril de 1995


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Perdas e recomeços

Carta da morte no baralho cigano

De tempos em tempos, a vida nos convoca a dar uma parada, viver períodos de recolhimento e reflexão em função de vários acontecimentos. A perda é um desses momento. Podem ser perdas de pessoas, afetos, e até mesmo de bens materiais. Deixar partir, desapegar, desprender é muito difícil. Um dos nossos maiores desafios de aprendizado e crescimento. E, nessas horas, são mobilizadas energias poderosas para abrir caminhos, terminar ciclos e iniciar novos tempos. Devemos navegar a favor da maré, largar o corpo e esperar chegar na praia, novamente.
Perdas são ocasião de renovação, renascimento, crescimento. Olhar o que se foi, sem se agarrar ao passado, apenas sorrindo para o bem que vivemos é o que nos impulsiona para a continuidade da vida. Empurrar o tempo, pensar no futuro, enxergar o novo e se regozijar com ele, nos ajuda a vencer as tristezas e lamentos do que se foi.

Não estou falando só da morte, mas de fins de relacionamentos, mudanças de casa, cidade, país, perdas de status, emprego, dinheiro. Grandes oportunidades de libertação e transformação radical. No tarô, vivenciamos isso na carta da Morte; na astrologia com o planeta Plutão. Grandes Mestres que nos trazem lições de recomeços e limpeza.

No entanto, para viver tudo isso e crescer, precisamos parar de olhar para trás com olhos de tristeza e renovar nossas esperanças. Deixar entrar a energia da renovação que todas estas vivências nos estão mostrando, justamente pela ausência, pelo não existir mais. Há um recado precioso nas perdas. É preciso saber ouvi-lo.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

I Ching para 2014


 

60 – CHIEN / Limitação

41 – SUN / Diminuição

Hexagrama principal
Contém dois elementos: água e lago. A água é ilimitada, porém o lago a limita. Quando há água demais no lago, ele transborda e alaga, inunda suas margens. A palavra chinesa para limitação é a mesma que denomina os nós que dividem o talo do bambu. Na vida diária, significa economia, que limita as despesas. Em relação à moral, refere-se aos limites firmes que o homem superior impõe à suas ações ligadas à lealdade e desinteresse.

O oráculo nos diz que toda limitação terá sucesso! Porém, adverte que não se deve impor limitações amargas aos homens. Ele fala da necessidade de viver, economicamente, em épocas normais para estar preparado para períodos de carência. Estão aí incluídas as questões ecológicas – falta de recursos hídricos e energéticos -; consumismo abusivo e excesso de gastos públicos.

O I Ching lembra que as limitações se encontram na natureza ordenadas pelo dia e pela noite e pelas quatro estações. Se seguirmos os ciclos naturais da vida já estaremos nos impondo limites. É assim que devemos traçar limites para as nossas despesas pessoais e para as despesas públicas no ano que começa, preservando dessa forma os nossos bens. O oráculo adverte que há situações que exigem sérias limitações para se chegar a algum resultado.

No entanto, o mestre lembra que há limites para as limitações. Todo exagero leva ao descontrole e à perda do domínio pessoal levando aos extremos opostos: gastar demais, comer demais.

Para que os homens se fortaleçam, os limites devem ser impostos pelo dever e serem aceitos voluntariamente pelos homens. Somos espíritos livres e todo limite precisa ser espontâneo.

No entanto, os governantes, líderes e homens de bem têm que impor restrições a si mesmos, antes de limitar seus subordinados. Além disso, o oráculo lembra que é possível realizar obras, mesmo com recursos modestos. Não se deve usar a justificativa de falta de verbas para a imobilização.

Hexagrama mutante

O hexagrama mutante fala de diminuição e lembra que diminuição não é ruim, é simplesmente diminuição. Aumento e diminuição vêm ao seu tempo. O oráculo diz que é necessário o deslocamento de bens da sociedade, sem que se esgotem as fontes de riqueza da nação, Ele adverte, especialmente, para prover as classes menos favorecidas nos momentos de carência.

Para o I Ching, épocas de recursos escassos despertam verdades internas. A simplicidade provê a força necessária para novos empreendimentos. Deve-se recorrer à força interior para suprir a carência externa. Os sentimentos do coração podem se manifestar mesmo em épocas de recursos escassos.

O I Ching fala também da diminuição da ira em detrimento do aumento da tranquilidade interior e que os instintos podem ser controlados pelas restrições circunstanciais, enriquecendo os aspectos superiores da alma.
 
Feliz Ano Novo com muita economia para todos!
 

 

 

 
 

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Herança natalina




Sempre gostei de Natal. Família grande e muito religiosa era uma data de grande alegria para todos nós. Meu pai passava todo o mês de dezembro nos preparando para a festa. Dia 24 íamos à Missa do Galo, à meia noite, na capela do colégio onde, nós meninas, estudávamos – o Sacré Coeur de Jesus -, no Morro das Graças, nas Laranjeiras. Impossível esquecer aqueles momentos mágicos. Nós arrumados com nossas roupas novas, pai e mãe orgulhosos da bela prole, o colégio todo iluminado para acolher as famílias que compareciam. A diretora e sua “vice”, nos esperavam no pátio de entrada da capela, no alto de uma escadaria, que só era usado nessa ocasião. Tudo muito solene e alegre ao som da música “Adeste fidelis”, marca registrada da ocasião. As famílias iam chegando e ocupando os bancos da capela e nós, colegas, nos olhando para observar as roupas, sapatos e, sobretudo, os irmãos meninos que só víamos nas grandes festas. Era um grande clima de cumplicidade entre nós, repetidos a cada ano como um ritual. Um breve reencontro, logo depois do início das férias que se prolongavam até março. Depois da cerimônia, beijos, abraços e confraternização entre os presentes que, diga-se de passagem, eram sempre os mesmos.
Em casa fazíamos uma pequena ceia e cama, pois o grande ato era no dia seguinte. Dia 25, quando levantávamos, a pilha de presentes já estava debaixo da árvore (sempre um enorme pinheiro verdadeiro) magnificamente decorado com enfeites colecionados de um ano para o outro e de várias nacionalidades. Aí começava a tortura, José Gurjão acordava e sem dar a menor bola para nossa ansiedade, com o propósito de prolongar ao máximo a deliciosa espera da folia, fazia questão de preparar um café da manhã especial com todos os filhos que iam aumentando, também, até chegar aos sete atuais. No final, quando já estávamos “suplicando”, sempre com a interferência de nossa mãe, começava o segundo ritual do Natal: a distribuição do presentes. A farra durava umas duas horas entre gritos de alegria e agradecimentos pelos pedidos, sempre atendidos. Só se entregava o presente seguinte, quando todos já tinham visto o anterior.
O terceiro ato era a festa, no final da tarde, que recebia todos os parentes, tios, tias e primos para celebrar o aniversário de nossa querida avó Boinha que morava conosco. E então nossa alegria se misturava ao círculo maior dos familiares pela noite afora, numa troca amorosa que nos abastecia por mais um ano de amor e afetos.
Tudo isso marcou minha vida e de todos os meus irmãos. No ano em que perdemos nosso pai, fizemos questão de manter o natal em família. Dali em diante, nossa mãe deu continuidade ao ritual, mesmo com os casamentos que se sucederam. Em meu núcleo familiar repeti a tradição e as festas do dia 24 em minha casa eram repletas da mesma energia que meu pai me transmitiu. Hoje, tenho certeza que um dos melhores presentes que ele nos legou foi este sentimento profundo do sentido do Natal, vivido o ano inteiro, e celebrado nos dias 24 e 25.
Por razões pessoais e familiares, este ano, essas memórias ficaram mais fortes e senti a necessidade de fortalecer o natal da minha família – filho, filhas com seus maridos e netos. Domingo, fiz um almoço na minha casa, chamei um Papai Noel de verdade para distribuir os presentes. Pedi ajuda aos dois netos mais velhos para me ajudarem na realização do plano perfeito e me deliciei com a felicidade dos pequenos! Foram momentos mágicos iguais aos que vivi na minha infância. Como somos todos crianças, resolvi dividir tudo isso com vocês... Feliz Natal!
 

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O "Grande Irmão" e as webcam




Quando li “1984” de George Orwell, há  anos atrás, o que mais me fez refletir foi sobre como aquelas câmeras de controle foram parar em todos aqueles lugares para que o “Grande Irmão” pudesse fiscalizar o mundo.
Para quem (ainda) não leu o livro – um clássico publicado em 1949 – é preciso esclarecer que a obra de ficção descrevia uma sociedade totalitária controlada por um só governante, o “Grande Irmão”, que controlava a vida de toda a humanidade, através de câmeras e telas (de televisão?) instaladas em todos os cantos, das repartições governamentais, passando por ruas, avenidas e estradas, até às residências particulares. A obediência às regras institucionais era obrigatória e fugir delas implicava em punições altamente sofisticadas elaboradas a partir de um método psicológico baseado no medo máximo de cada um. Orwell falava de guerras sem fim entre os continentes que se revezavam a partir de interesses comerciais e políticos. As mudanças constantes destas contendam eram anunciadas, incessantemente, para todos os habitantes, através do sofisticado sistema de comunicação.
Sem entrar nos detalhes da capacidade de Orwell de se adiantar ao futuro e prever uma sociedade bem próxima à nossa, há mais de sessenta anos, inclusive a intuição de um mundo globalizado, dividido entre três grandes potências e interligado por uma rede que ele sequer podia imaginar existir, vou me deter ao que me referi no início – a instalação das câmeras.
Minha pergunta começou a ser respondida no dia em que instalei a primeira webcam em meu computador. Parei e pensei: “Êpa, estou facilitando a rede do “Grande Irmão!” Sem paranoias, comecei a usá-la para falar com algumas pessoas, mostrar meus netinhos aos parentes ausentes, como um ser humano normal do século XXI. No entanto, nunca mais parei de pensar que estava vivendo o período de implantação das câmeras que Orwell retratava em "1984".
De vinte anos para cá, todos nós, da sociedade “pós-moderna” estamos implantando a rede do “Grande Irmão”. Em nome da segurança, comunicação, exibição pessoal e controle instalamos câmeras em todos os lugares. Praças pública, prédios de apartamentos, ruas, avenidas, estradas, escolas, universidade, e o que mais pudermos imaginar, estão expostos a equipamentos de gravação à disposição dos cidadãos, das instituições, do governo e da justiça. Pensem em privacidade, agora, e respondam se conseguem imaginar onde ainda a encontramos.   Corram, é lá que nos escodemos, é para lá que devemos ir. Isto se ainda der tempo...
No dia 10 de novembro, o jornal O Globo publicou matéria com o título “Sorria, você está sendo filmado” em que diz que no Rio há uma média de uma câmera a cada nove habitantes. A cidade conta com 700 mil câmeras de segurança. O mercado de segurança cresce 10% ao ano e está em franca ascensão. A reportagem discute a necessidade de um marco regulatório e os limites entre segurança e privacidade. Ao ler o texto com muitos exemplos e situações polêmicas sobre a instalação de câmeras é que me veio o sentimento de consentimento para o poder do “Grande Irmão”. Não sei se as profecias de Orwell se concretizarão em sua amplitude, mas tenho certeza que é tempo dos indivíduos começarem a se questionar sobre o quanto estão colaborando para isso. Confesso que há um limiar de permissividade e de impossibilidade de retorno do desligamento desta perversa rede que me assusta!
 

 

 

 

 


sexta-feira, 25 de outubro de 2013

O arcano da vez: Temperança

Abri as cartas e tirei uma só, pedindo orientação para meus leitores. Veio a Temperança, bela carta. Quem não quer este atributo nos confusos dias atuais? Bom para refletir sobre como anda nossa vida. Ansiedade, estresse, angustia, tristeza, depressão são palavras que não só ouvimos como sentimos. Mas a temperança nos ajuda a afastar estes sentimentos negativos da “modernidade líquida” que não conseguimos segurar, apreender e compreender. Tudo escapa pelos dedos, como diz Zigmunt Baumann. Porém, só a busca da paciência, serenidade, tranquilidade é que nos faz aceitar a sociedade moderna. A aceitação dispensa a compreensão e solicita a fé. Não uma aceitação submissa e dominadora que nos destrói e anula, mas a aceitação compassiva de que nos fala o budismo tibetano.
A carta da temperança remete a esta compaixão que atingimos a partir do trabalho interior, do autoconhecimento. É como se estivessem nos dizendo: “fiquem tranquilos, tudo que acontece agora é fruto de conquistas anteriores”. Sim, a temperança é a carta dos bons resultados. Ela também remete a um tempo de pausa. Debaixo da influência desta energia, nada vai acontecer de uma hora para outra. Há um tempo para plantar, outro para colher. No meio dos dois está a temperança.
Outro importante significado do arcano da temperança é a alquimia. Há uma passagem do evangelho em que Jesus diz “O sal é bom, mas se o sal perder o gosto, como pode ser recuperado? Não presta nem para a terra nem para o estrume. Jogam-no fora.” A temperança é como o sal e sua maravilhosa alquimia na transformação dos alimentos. No entanto, tem que ser bem dosado, requer equilíbrio. Não há meio termo em seu emprego, ou é salgado, ou não é. Na alquimia da temperança, também; ou estamos em equilíbrio, ou não. Portanto o recado é muito preciso, não há “mais ou menos” quando se fala de temperança. Difícil, não é?
No entanto, a temperança é uma carta apaziguadora e cheia de esperanças. Ao contemplá-la percebemos o trabalho do anjo da alquimia, sempre passando o líquido de uma taça para a outra, sem perturbação, apenas com precisão de movimentos e total atenção.  Ele sabe que esta concentração vai anular os tormentos passageiros e trazer paz à alma. E é isso que desejo a vocês agora. Até a próxima!